Terça-feira, 18 de Agosto de 2009 • 13:03

Este texto não é uma homenagem

Raúl Solnado

O falecimento ainda recente de Michael Jackson originou, aqui no Skyzophrenia, o post em jeito de homenagem que então se impunha perante a importância do artista a uma escala global. No entanto, como referi no post em questão, tratava-se de alguém que nunca me marcara a nível pessoal.

O caso de Raúl Solnado é bastante idêntico, mas apresenta uma subtil diferença, pelo que sublinho desde já que esta não-homenagem (uma vez que Solnado era adverso a tal conceito) não surgiu mais cedo apenas por causa do meu afastamento temporário das lides internéticas. Hoje, aqui me encontro para remediar isso mesmo. Como dizia, também Raúl Solnado nunca foi propriamente um ídolo para mim, porventura devido ao significativo desfasamento de gerações. Porém, não só lhe conheço e reconheço o talento e a sobriedade há já muitos anos, como a sua importância global — ou, mais correctamente, nacional — tem um impacto muito mais directo na minha vida do que a de qualquer pop star musical. Porque o Raúl foi o pioneiro de um registo humorístico muito específico, precisamente o registo que mais me fascina e influencia. Porque foi ele o primeiro de uma linhagem de muitos profissionais que fui admirando desde pequeno até aos dias de hoje, desde Herman José e Nicolau Breyner até aos mais contemporâneos.

Durante a semana passada, os vários canais de televisão nacionais fizeram questão de que me reencontrasse incessantemente com álguns clássicos do mestre, ao mesmo tempo que ia conhecendo trabalhos seus com que nunca me deparara. Felizmente, é impossível alguém se cansar de peças como «A Guerra de 1908» ou de personagens como o alemão Fritz. Não me sentindo capaz de fazer jus à pessoa que perdemos no passado dia 8 (sobretudo, depois de ter lido palavras como estas, do Bruno Nogueira), deixo o conselho de perderem umas horas no YouTube a conhecer alguns dos mais míticos sketches e textos de stand-up comedy do humor português e de verem As Divinas Comédias, o fabuloso resumo em quatro episódios dos 50 anos de humor televisivo em Portugal que a RTP transmitiu apressadamente no seguimento da triste notícia da morte de Solnado, mas que, felizmente, disponibilizou na íntegra na secção multimédia do seu site.

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2 COMENTÁRIOS:

Serendipity

"E façam o favor de serem felizes."
*

23 de Agosto de 2009 00:14 Apagar
Dylan

Não sendo eu da geração de Raúl Solnado, sei a perda irreparável que o seu desaparecimento provocou, numa época em que a comédia se confunde com o insulto brejeiro. O actor aprendeu com os melhores - João Villaret, António Silva e Vasco Santana -também por isso, merece estar na galeria dos imortais. Imaginemos a audácia e a inteligência de ridicularizar o Antigo Regime e os seus tabus, contornando a censura, utilizando jogos de palavras numa encapotada infantilidade. Foi um homem solidário que deu tudo pelo teatro, muitas vezes colocado acima dos interesses familiares.

http://dylans.blogs.sapo.pt/

30 de Outubro de 2009 19:59 Apagar

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