Domingo, 10 de Maio de 2009 • 14:21

Enterro da Gata ’09: sonoridades transgeracionais de alto calibre


Após finalmente me ter estreado nesta festa durante o meu ano de caloiro, em 2007, e de, no ano seguinte, não ter marcado presença, eis que se deu o meu ansiado regresso ao Enterro da Gata. Foi ontem e foi na, para mim, nova localização do seu recinto, o qual, há um ano, mudou-se de armas e bagagens de um terreno limítrofe do campus da Universidade do Minho, aqui bem perto de minha casa, para o mais distante — mas também menos propício a transformar-se facilmente num pântano — espaço exterior do Estádio Municipal de Braga. Por esse motivo, esta primeira noite serviu para travar conhecimento com uma realidade nova mais do que para reencontrar algo que eu já conhecia. Pelo que eu tenho vindo a observar, parece-me que temos vindo a conquistar, aos poucos, uma posição de destaque no panorama das semanas académicas nacionais, o que, na prática, só contribui ainda mais para a sensação de me encontrar num autêntico festival de música. Na verdade, a principal diferença reside apenas no facto de, neste caso, vir dormir e comer a casa e haver uma probabilidade bastante maior de me cruzar constantemente com algumas caras conhecidas.

Para a abertura das "hostilidades" da edição de 2009, que se deu com quase duas horas de atraso, Braga recebeu dois nomes incontornáveis da música portuguesa: Deolinda e Pedro Abrunhosa. Sei bem que os Deolinda surgiram muito recentemente e que estão envoltos num hype considerável que se poderá desvanecer com o tempo, mas creio que qualquer pessoa sensata concordará que o seu nome já ficou permanentemente gravado no inventário da elite dos artistas e grupos nacionais. O concerto de ontem foi idêntico ao único anterior deles a que eu assistira (em Arcos de Valdevez, em Fevereiro último), mas a energia do quarteto liderado por Ana Bacalhau é tanta e as canções são tão genuinamente boas que, sinceramente, eu não me importaria nada de repetir a dose várias vezes. Como é evidente, notou-se que, ainda que mantendo a essência do seu espectáculo ao vivo tradicional, os Deolinda esforçaram-se no sentido de efectuar subtis adaptações para que o mesmo se encaixasse melhor no ambiente em que se encontravam. Isso notou-se, sobretudo, no ritmo acelerado de toda a actuação — o que, em termos concretos, só imprimiu ainda mais vigor contagiante a um alinhamento preenchido por temas como Fado Toninho, Fon-Fon-Fon, Ai Rapaz ou Movimento Perpétuo Associativo. Nesse sentido, só me pareceu descabida, no campo das canções que costumam apresentar ao vivo e que não foram incluídas em Canção ao Lado, a escolha de Entre Alvalade e as Portas de Benfica em detrimento da bem mais animada Fado Notário.

Deolinda @ Enterro da Gata (2009.05.09)

Pedro Abrunhosa @ Enterro da Gata (2009.05.09)

Os Bandemónio — ou melhor, os músicos da banda de suporte a Pedro Abrunhosa, dado que ele, segundo o que mais tarde descreveu com um requinte sádico impressivo, matou os seus míticos companheiros recentemente — foram os seguintes a pisar o palco. O concerto do carismático portuense que nunca se dá a conhecer desprovido de um par de óculos escuros acabou por ser o que eu esperava dele, depois de, também há dois anos, ter visto pequenas porções de uma actuação sua na minha única incursão às Noites da Queima, no Porto. Sim, garanto que já esperava assistir a uma actuação assim tão bizarra, mas, se houve coisa libertadora na experiência que aquele espectáculo proporcionou, foi constatar que Abrunhosa sabe bem quem é. Quero com isto dizer que se percebe que o homem sabe o que vale, que sabe que não tem nada a provar a ninguém, que conhece perfeitamente as suas limitações enquanto cantor — e, mais importante do que tudo isto, que já tem uma longa carreira que o faz ter uma postura em palco brutal. A questão aqui é que "brutal" pode ter conotações diferentes, e Pedro Abrunhosa trata de as assumir todas: há o lado positivo de ver um artista suficientemente à vontade para fazer o que lhe dá na real gana, concretizando um espectáculo espontâneo e sincero, mas há também o lado «que-raio-se-está-aqui-a-passar?» a espreitar pontualmente graças a alguns exageros de performance (alguém me pode explicar o que é aquela história da «dança do Caribe»?). Voltando à parte da carreira, o concerto foi um espelho fiel da sua extrema versatilidade e importância, indo de baladas clássicas como Tudo o Que Eu Te Dou, a fechar o encore, e Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar (havia gente a verter lágrimas, nas primeiras filas) a emotivos protestos políticos como Talvez Foder. Pedro Abrunhosa fez o seu espectáculo.

Para animar este domingo cinzento, deixo-vos com um cheirinho do primeiro concerto da noite, cortesia deste excerto da inédita Quando Janto em Restaurantes:

video

Complemento essencial: http://enterrodagata.aaum.pt/

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5 COMENTÁRIOS:

L!NGU@$

Foi uma boa primeira noite, sim, senhor. Não dá para a gente se cansar de ver Deolinda. E o Abrunhosa, bem, vai entretendo bem o pessoal com as sua parvoíce.

10 de Maio de 2009 15:23 Apagar
saves

Ai Enterro, Enterro... Hoje lá haverá mais um bocadinho de boas horas bem passadas, parecendo minutos :P lol Guano Apes rulles

10 de Maio de 2009 20:22 Apagar
Mizinhaaaaaa

Muito bom post este teu :)

Também gostei bastante de Deolinda. Mas confesso que não tive paciência para aturar o concerto todo do Abrunhosa.

Espera-se mais uma grande noite, hoje ;)

10 de Maio de 2009 21:39 Apagar
A mais nova

Este foi o ano da minha primeira Queima. É uma semana muito maluca, é tudo o que tenho a dizer :p
Queria muito ter dado um saltinho ai ao enterro, mas não deu... Estive no local na missa de finalistas e, embora o vosso cartaz (e o preço do bilhete semanal - quase 20€ mais barato :O ) fosse melhor, as nossas barraquinhas têm muita mais piada!!

boa continuação em LEsI! ;)

17 de Maio de 2009 01:05 Apagar
Fábio Vieira Fernandes

Já só apanhei LEI, mesmo. :) E espero que a continuação seja boa, mas curtinha!

Quanto ao preço dos bilhetes, sim, há que endereçar louvores à AAUM por se lembrar, ao contrário de outras, que isto é uma festa para os estudantes e não para ganhar dinheiro...

17 de Maio de 2009 12:18 Apagar

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