Enterro da Gata ’09: a noite do rock & roll à antiga

Aquele que constituiu um momento de reposição da ordem natural das coisas — já estivera prestes a vê-los em diversas ocasiões, sendo que, na última, cheguei mesmo a assistir ao início do concerto — foi igualmente o espectáculo mais colossal do Enterro da Gata '09 até ao momento. Falo-vos da actuação da melhor banda portuguesa da actualidade, os Wraygunn. Imparáveis e contagiantes do início ao fim, tornam impossível a tarefa de não se ficar rendido àquela explosiva mistura de rock, soul, pop e blues. Em minha opinião, apenas falharam na componente da comunicação com o público, na medida em que se conseguia perceber muito pouco do discurso de Paulo Furtado (e também senti a falta da She's a Speed Freak, uma das minhas canções favoritas dos Wraygunn e aquela que, se não estou em erro, meu deu a conhecer a banda de Coimbra). Por falar no irrequieto frontman, que dizer sobre tanta criatividade, energia e virtuosismo? Não foi à toa, aliás, que, há não muito tempo, os utilizadores do site da revista Blitz o consideraram o vocalista português mais carismático de sempre. O meu próximo passo será assistir a um concerto de Legendary Tiger Man.
Dado que, por uma qualquer razão insondável, os vídeos de hoje ficaram todos com um som horrível, deixo apenas um excerto da pujante Love Letters from a Muthafucka, do mais recente Shangri-La:
Fernando Alvim é Deus. Cada vez mais, desconfio que esta minha teoria é acertada: Fernando Alvim é Deus e nem ele o sabe. Não é segredo para ninguém a minha admiração por este homem dos vinte e sete ofícios, temática que até já deu origem a um post, em tempos idos. Esta noite não assinalou a minha estreia apenas nos urinóis do recinto, mas também nas tendas que funcionam como "palcos" secundários: na sempre opressiva tenda da Rádio Universitária do Minho, o RUM Soundsystem debitava os habituais Rage Against the Machine e System of a Down; na outra, o prato forte para a madrugada era aquele que é, simultaneamente, o pior DJ de todos os tempos e o melhor MD (mete-discos, como o próprio se define) de sempre. Alvim põe sempre as mesmas canções? Certo. Alvim não sabe fazer passagens e mistura alhos com bugalhos? De acordo. Mas, caramba, sabe animar uma enchente de gente e põe uma multidão verdadeiramente ao rubro — além de que não é qualquer um que mistura The White Stripes com Paulo Alexandre. Só não percebi porque é que saiu abruptamente, depois de menos de uma hora em cena, mas eu também não me encontrava fisicamente apto para aguardar por um eventual regresso. (Aliás, houve uma outra coisa que eu não percebi: porque é que estava um palerma do Sardinha Biba, que patrocina o espaço, a brincar aos MCs em vez de estar caladinho.)
Retrocedendo no tempo e voltando ao palco principal, devo confessar que não assisti ao início do concerto dos UHF. No entanto, penso ter visto o suficiente para retirar algumas conclusões. Sublinhe-se, primeiro, que falo de um colectivo que sabe destilar rock, e esse mérito não lhes deve ser retirado só porque a sua formação foi entretanto rejuvenescida. É curioso perceber que foram os Xutos & Pontapés que alcançaram a posição intocável que hoje se lhes reconhece, mas que poderia muito bem ter sido a banda de António Manuel Ribeiro a consegui-lo. O público presente em frente ao palco esteve longe de ser o mais numeroso destas três noites já cumpridas de Enterro da Gata, mas creio não estar a dizer nenhuma barbaridade ao afirmar que foi o mais dedicado aos artistas em palco. No encore, então, instalou-se o caos, com Cavalos de Corrida e Menina Estás à Janela. Infelizmente, não ouvi nenhuma ode ao Glorioso.
Agora, vou tratar de me enfiar na caminha, já que, logo à noite, teremos mais um cartaz de luxo, com Orishas a abrir caminho para Da Weasel. Pelo meio, ainda terei de procurar a menina de Medicina por quem ontem me apaixonei. Enfim, que semana difícil, esta!

Complemento essencial: http://enterrodagata.aaum.pt/
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